Modernidade x Tradição ou Velocidade x Percepção?

O título até assusta. Mas não é nada tão dramático.

A idéia começou com esse artigo aqui da Infoexame. Uma ilustração sobre como um café Starbucks estava perturbando a paz em torno de um Mosteiro Budista na China. Na verdade, ao final do artigo, o próprio escritor mostra que ele está localizado em uma rua revitalizada e que em pouco tempo ganhou vários bares e restaurantes. Portanto, segundo a idéia inicial, todos os estabelecimentos estariam perturbando o mosteiro Budista…

Me lembrou um caso que li há muito tempo atrás (tanto que nem me lembro quando…). Turquia, Besiktas e Fenerbahce são os grandes rivais do futebol local e estão localizados na capital, Istambul. Algo como o Flamengo e Fluminense (antes do Eurico Miranda no Vasco, o grande rival do Flamengo no Rio era o Fluminense…), Corinthians e Palmeiras, Internacional e Grêmio, Atlético e Cruzeiro, bem, você entendeu! Mas aquela época o Besiktas usava um uniforme preto e branco, e o rival, Fenerbahce (nomes complicados, chega de escrevê-los!) usava as cores vermelho e amarela. Em uma dada final entre tantas outras, o Fener… o time amarelo e vermelho vence, sai para rua, comemora, etc. E o Bes… o time preto e branco vai para casa, volta para o bairro onde está localizado a sede do clube, e os torcedores se colocam de frente com a maldição do fast-food: uma loja do MacDonalds!

Não é o de Istambul, mas dá para entender o que aconteceu, não?

Claro, a modernidade permanece: alguns meses depois a primeira loja com cores diferentes da original é inaugurada no mundo! E advinha que cores preto-e-branca eles usaram? Ao invés de continuarem uma guerra, conseguiram agradar aos fãs do clube e uma clentela que sabia ter sido reconhecida, mesmo após um baita vandalismo… Mais senso para oportunidade que isso, impossível.

O outro post da mesma Infoexame que me “inspirou” foi este aqui. Já tinha visto outro caso como este, alguém envia um convite de uma festa por uma rede social e recebe mais convidados que o local pode suportar. Lembro de um no qual uma garota aproveitou a viagem dos pais e fez uma festa em casa. Chegou um momento que os vizinhos chamaram a polícia… Mas este caso citado aí em cima é de um exagero tão grande que mesmo com a festa cancelada haviam mais de dez mil pessoas prometendo ir! Se ao menos 10% delas estivesse falando a verdade e resolvessem “trollar” a pobre coitada que errou o convite (trolls, não os alimente!), não somente ela teria um surto quanto o local onde ela estivesse sofreria severas consequências. A jovem que fez o convite somente descobriu o erro na semana seguinte, já que tinha cancelado a festa. A polícia local pedia qualquer prova gravada ou filmada, porque realmente houve um tumulto, criando pânico. A cidade tinha apenas 18 mil pessoas e houve confusão nas ruas…

Por último, eu realmente não lembro onde vi o comentário original – na “modernidade” a informação é rápida demais, e as vezes difícil de referenciar, mesmo com o oráculo que tudo vê – mas sim, houve uma grande repúdia a um aplicativo muito simples que havia sido lançado para Iphone e similares. Ele permitia você se identificar e dizer se estava em um lugar legal, como um bar ou restaurante. Mas ele fazia uso da API do Facebook. Mais pessoas sabendo, mais “QUAISQUER” pessoas sabendo onde você estava. Como não encontrei o artigo que falava da bela criação, serei sucinto: o escritor comentava como era fácil ler o perfil de uma pessoa, saber do que ela gostava, onde tinha estudado, quem eram seus amigos, onde trabalhava, isso sem sair da cadeira, inclusive com foto e descrição! E a engenharia social podia fazer o resto… O truque mais simples era ser o amigo de infância que estudou no mesmo colégio que você. Sabendo das coisas que gostava, apresentar-se como alguém agradável e que tinha os mesmos interesses. O campo de caça estava aberto, pois muitos usavam o serviço. Era possível ver as pessoas no bairro em volta do local que estava, dada a fama que ele tinha ganho. Mas ao invés de regularem e avisarem sobre o serviço e sua privacidade, bloquearam ao desenvolvedor o uso da API.

E acho que é aí que está o centro da questão: vivemos muito mais rápido do que antes, com serviços extremamente úteis mas ao mesmo tempo cada vez mais invasivos. Concordamos com essa invasão de privacidade em prol da comodidade. Mas vale o que perdemos? Cada um pesa o seu caso, eu nunca convivi com monges budistas e acho um sacrilégio ver sua paz perturbada. Mas é a velha história do Brasil, quem mora no interior acha a cidade o máximo e quem está na cidade quer fugir para paz do campo. Quem nasceu na China quer suas vontades realizadas sem muito se importar com os monges. Mas alegrias momentâneas e passageiras resolvem as vidas? A reação exagerada da torcida do Besiktas (escrevi certo?) foi algo no fervor do momento, e claro, muito exagerado em relação à pequenas coisas que passamos no dia a dia. E obviamente a reação do McDonalds foi algo corporativo, dentro da janela de oportunidade, mas pensando à longo prazo e entendendo que aquele prejuízo causou crescimento! Li um comentário lindo outro dia de que todos “hoje em dia temos muitos e muitos amigos, desde que sejam cada um em sua tela”… No passado, éramos obrigados a conviver com todo tipo de pessoas. Era chato viver com aquele mala que enche teu juízo todo dia, mas ao mesmo tempo você desenvolvia tolerância, inteligência para suportá-lo, e percebia onde era necessário conviver e onde criar os seus próprios limites pessoais. No mundo corporativo, nessas horas chamam de “trabalho em equipe”. Mas nem isso tem mais o mesmo sentido hoje. Antes trabalho em equipe era algo que privilegiava à todos, fazia com que o trabalho fosse resolvido em grupo e cada um completasse as deficiências dos outros. Agora é um leão ao lado do outro em um momento de necessidade comum e no primeiro instante matando os demais.

Assim, pessoas muito distantes uma das outras “falam” sobre coisas que tem em comum, mas não convivem com outras que completariam seus defeitos e permitiriam aprender mais, não desenvolvem laços de amizade diferentes e continuam incorrendo em erros simples na convivências com seus pares, quando não se negam a aprender coisas que lhe trariam benefícios em suas vidas. E todos aqueles pequenos prazeres diários não permitem que se venha a construir algo que lhe faça feliz em grande quantidade. Alguns falam sobre egoísmo, outros sobre solidão. Não sou filósofo, mas não é preciso muito para ver quantas reportagens tem sido feitas recentemente como cada vez mais pessoas vivem sozinhas, ou como a quantidade de relacionamentos duradouros caíram, muito mais ainda as uniões (e como uma vida sozinho é mais difícil e mais cara!). Mas claro, eu posso ir para minha casa e dormir sossegado, já que ninguém irá encher meu saco.

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E por fim os Trolls. A internet é terra sem lei? Nem vou tentar discutir. A briga entre privacidade, lê-quem-quer, falta de leis que regulamentem, e a utopia “fórum supremo de discussão e liberdade” vai continuar por um bom tempo ainda. Apesar de todos sermos extremamente monitorados, apenas ações não são executadas por órgãos que determinam leis, governos e afins. Ainda não se chegou a um consenso econômico e social, afinal é o direito autoral o assunto mais discutido e não a liberdade de expressão… Enquanto isso, é bom pelo livre conhecimento, é péssimo pelo mau uso do conhecimento. Todo conhecimento é livre, o problema é como usá-lo… E essa “liberdade” criou os Trolls, ou como diz na wikipedia, bem no início da descrição, “designa uma pessoa cujo comportamento tende sistematicamente a desestabilizar uma discussão, provocar e enfurecer as pessoas envolvidas nelas.”. Ótimo, porque não julga motivos nem cria rótulos. Mas diz muito bem quem cria esse tipo de coisa. E a raça dos trolls deve estar passando em quantidade grande a parte das pessoas comuns.

Não confunda Trolls com pessoas brincalhonas, farristas, bem-humoradas, algo muito comum. Acho que nem aquele cara que dizia que “perdia o amigo mas não perdia a piada” antigamente se encaixa na definição de Troll, porque ele reconhecia quem era um amigo… Muito provavelmente tantos foram a festa da menina citada acima apenas pela brincadeira, as risadas, e ainda cantariam e se divertiriam a noite toda. Acredito até que a pequena cidade receberia uma festa e logo ninguém saberia porque ela tinha começado! Se fosse só isso seria o melhor aniversário da vida dela, mas uma parte (acredito eu grande) estava lá para ridicularizá-la e transtornar o seu dia. Um prazer besta em ver o outro triste, se sentindo mal e exibir uma superioridade que só existe na própria mente de quem “desestabiliza a discussão”. Os Trolls, os verdadeiros, não as crianças nem os brincalhões, nem os que fazem uma piada fora de hora ou entram em uma conversa completamente perdidos e todos aqueles em situações que são apenas exageros. São uma praga que não só criam os transtornos mas mostram a ideia atual de importar-se apenas com a própria risada, sendo superior a risadas dos outros Trolls em volta.

E pensar que a vida moderna nos proporciona coisas sensacionais mas extirpa as coisas simples e boas da vida. Há uma fala na animação “Carros” (o primeiro): “prejudicaram as cidades para ganhar dez minutos de viagem”. O “making off” da animação mostra como os criadores viajaram pela famosa rota 66, que cortava o território americano, possuía muitas cidades em seu comprimento e etas fora sendo deixadas de lado pelas poderosas “interestaduais” pistas largas e rápidas que não seguiam os entornos da geografia, e tiravam as belas vistas das montanhas e a vida das pequenas cidades. A rota 66 ainda é muito famosa e sobreviveu por sua história, é possível ver como eles encontraram figuras típicas e pequenas cidades ainda preservadas por toda a viagem que fizeram. Não vejo um equivalente no Brasil, mas a ideia é que ninguém mais se imagina perdendo tempo para chegar ao seu destino apenas para agradar quem estava no caminho. Muito bem, há aqueles que tem pressa, mas todos precisamos ter pressa? O quanto da “rapidez” da vida moderna realmente nós utilizamos e o quanto ela nos é imposta por tantos fatores, como informações desnecessárias, consumismo, cobranças criadas em trabalhos estressantes e necessidade de ter mais dinheiro para suprir gastos fúteis? Muitos diriam “clichê” nesta última frase, mas clichês na maioria das vezes são verdade. Queremos o melhor e o mais prazeroso cada vez mais, mas realmente aproveitamos o que recebemos ou tornamos aqueles pequenos momentos descartáveis?

Eu ainda fico com a paz dos Monges Budistas.

Atualização:

Eu já tinha terminado de escrever quando li isto aqui. Inclusive adicionei na nossa fanpage do Facebook. O que mais me impressionou foi a criatividade proporcionada em usar a tecnologia sem incorrer contra suas tradições: o celular Kosher, que não se liga a internet (não permite ver pornografia…), não troca mensagens (não entendi porque, se fala, porque não pode texto? não ser ouvido, falar em segredo???) e desliga no dia de descanso sabático! Como que eu não pensei nesta ideia  estaria vendendo celulares para cada Adventista do sétimo dia do mundo e ganhando milhões (não são só os adventistas que possuem dias sabáticos, mas o nome é autoexplicativo…)! Ao mesmo tempo, a intolerância religiosa fez-se queimar todos os Iphones apenas pela possibilidade da tentação. E assim posso realmente enfatizar que o problema não é o conhecimento, a tecnologia e nem os prazeres e facilidades na sua vida, mas o que você faz com eles…

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